A rivalidade e a inveja como motores da arte moderna

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Ainda que, em sua maioria, sejam bem conhecidos os episódios biográficos reunidos pelo crítico Sebastian Smee em “A arte da rivalidade – Quatro amizades que mudaram a arte moderna” (Zahar, 336 pgs, R$ 69), a originalidade da premissa faz valer a pena a leitura do livro. Ao revisitar os relacionamentos tensos e conturbados entre quatro pares de artistas consagrados – Degas e Manet, Matisse e Picasso, De Kooning e Pollock, Francis Bacon e Lucian Freud (na foto) – o autor argumenta que a inveja, o recalque, a traição e a competição foram motores fundamentais do desenvolvimento da arte moderna, em diferentes etapas de sua evolução.

Capa do livro

O grifo na palavra evolução é proposital, porque Smee acaba proporcionando ao leitor, também, um breve resumo histórico do período como o capítulo final de uma narrativa linear da arte, começando pelo Impressionismo e passando pelo Expressionismo abstrato, até chegar ao estranho figurativismo de Bacon e Freud, com a representação de corpos distorcidos e o registro cru da carne e da pele. O Modernismo nas artes plásticas foi marcado por sucessivas rupturas, que, uma após a outra, empurravam a arte para a frente, em um encadeamento lógico no qual cada movimento representava superação do anterior.

 

Não é mais assim: lá pelo início dos anos 80 do século passado, com o fim das últimas vanguardas históricas, a chegada do pós-modernismo estabeleceu a ideia do fim da História da arte – não por acaso contemporânea da tese do fim da História propriamente dita. Desde então, a produção artística não se encaixa mais em nenhuma grande narrativa, antes se caracterizando por um conjunto de manifestações aleatórias e repletas de referências erráticas ao passado: como tudo já foi feito, resta aos artistas contemporâneos brincarem ironicamente com o passado, de agora em diante repetido como farsa ou paródia. Perdido o seu sentido histórico – perdidos o seu significado e a sua direção – a arte se transformou, assim, em um museu de grandes novidades, em um parque de diversões no qual quem dita as regras é o deus mercado.

 

Vencedor do Prêmio Pulitzer, Smee não está interessado em seu livro na exploração sensacionalista das brigas, pequenos escândalos e segredos de alcova dos artistas abordados – aliás, todos essencialmente pintores, detalhe significativo. As anedotas biográficas são usadas apenas para reforçar a tese de que a arte moderna foi movida pela rivalidade e pela inveja (que camuflavam, em alguns casos, uma certa tensão erótica entre amigos e colegas de ofício: Smee descreve os laços entre Freud e Bacon como “homossociais”). Por exemplo, Manet sentia inveja da técnica irretocável e da condição social de Degas, e sem esta inveja talvez não tivesse produzido obras revolucionárias como “Le Déjeuner sur l’Herbe” ou “Olympia” (1863). Uma possível infidelidade da mulher de Manet, Suzanne, foi um detalhe que apimentou a rivalidade entre os dois.

 

Elementos comuns marcaram a trajetória dos quatro pares de artistas: uma longa e intensa amizade, progressivamente abalada pela vaidade, pela busca da fama, pela luta por status e por divergências conceituais, pela competição, até ser irremediavelmente destruída. Ou seja, Smee demonstra como conflitos pessoais motivados por sentimentos percebidos como pouco nobres foram essenciais para forçar os limites da arte moderna. O autor fornece, assim, elementos para uma “história íntima” da arte moderna, ainda a ser escrita.

Fonte: G1

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