Como os números podem ser usados para criar uma ilusão estatística

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Pense em uma propaganda com as famosas fotos de “antes e depois” que realmente chamaram sua atenção. A transformação prometida nas imagens será mesmo tão impressionante ou as técnicas de ângulo e luz dão mais mérito para o fotógrafo? A sugestão é dada pelo escritor Darrell Huff no clássico “Como mentir com estatística”. No livro, ele esclarece como podemos ser facilmente enganados com comparações que parecem impressionantes, mas que, na verdade, são feitas entre números que não podem ser comparados. 

 

Ele ilustra como isso acontece na mídia, por exemplo, ao mencionar um artigo publicado na revista This Week, o qual tratava de estatísticas sobre acidentes de trânsito. O texto trazia a informação de que se uma pessoa sofresse um acidente grave às 7h, ela teria quatro vezes mais chances de sobreviver do que se o mesmo acidente tivesse acontecido às 19h. Para checar a essa conclusão, no entanto, o artigo não mencionava que o volume de pessoas nas estradas no turno da noite era muito superior do que no horário da manhã. 

 

Deixar esse dado dessa forma dá brecha para uma interpretação errada de que a estrada é mais segura pela manhã – quando, na verdade, o dado não tem consistência nenhuma nesse sentido. Nas palavras do autor, seria o mesmo que concluir absurdamente que dirigir em período de neblina é mais seguro do que com o céu claro, simplesmente porque terão menos veículos em circulação.   

 

De forma semelhante, um outro artigo que dizia que em um determinado ano, 4.712 pessoas morreram em acidentes ferroviários. O dado tinha peso para gerar comoção entre as pessoas e receio de usar trens como meio de transporte. O artigo deixava de esclarecer, no entanto, que praticamente metade das vítimas desses acidentes eram motoristas de carros que bateram em trens em cruzamentos. A maioria dos demais, eram pessoas pegando carona clandestinamente nos trens. Ou seja, das 4.712 vítimas, apenas 132 eram realmente passageiros. 

 

Esse mesmo uso distorcido de números e estatísticas pode acontecer com balanços financeiros de empresas que são divulgados periodicamente em relatórios. Ele menciona, por exemplo, um ano em que uma empresa automobilística divulgou um relatório relatando um aumento de 12,6% nas vendas – que naquele ano poderia ser interpretado como relativamente modesto. No entanto, esse dado não apontava que a mesma companhia havia aumentado 44,8% em investimentos no mesmo ano. 

 

Quando uma empresa diz, por exemplo, que de cada um real vendido, ela lucra apenas um centavo, quem recebe a informação pode ficar com a ideia de que a empresa tem um retorno modesto. No entanto, o efeito desse retorno no acumulado de um ano pode ser significativo – ainda mais se a empresa tiver alto volume de vendas. Só que essa grandeza não fica explícita naqueles relatórios que propositalmente tentam parecer modestos. 

 

Fonte: G1

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