Kay Graham e o jornalismo atual

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Tom Hanks e Meryl Streep em cena de 'The Post: A guerra secreta' (Foto: Divulgação)Tom Hanks e Meryl Streep em cena de 'The Post: A guerra secreta' (Foto: Divulgação)

Tom Hanks e Meryl Streep em cena de ‘The Post: A guerra secreta’ (Foto: Divulgação)

Uma das consequências da crise do jornalismo é uma safra de filmes que tentam resgatar a imagem da imprensa. Depois de Spotlight, vencedor do Oscar em 2016, o veterano Steven Spielberg decidiu levar às telas um caso clássico na história da imprensa americana, conhecido como “Os documentos do Pentágono”.

O resultado, The Post: a guerra secreta, é um produto típico de Hollywood. Não tem, com a verdade, a relação que um filme que tenta defendê-la deveria ter. Mesmo assim, traz algumas lições, tanto para a imprensa quanto para o público hoje tão acostumado a criticar a “mídia”, sem saber como o jornalismo funciona na prática.

A história narrada é conhecida. Num caso julgado em 30 de junho de 1971, a Suprema Corte americana garantiu aos jornais New York Times e Washington Post o direito de publicar reportagens baseadas em documentos secretos do Pentágono, que denunciavam como o governo manipulara a opinião pública para levar adiante a Guerra do Vietnã.

No filme, a história é transformada num drama protagonizado pela publisher do Post, Katherine Graham (vivida por Merryl Streep), e por seu diretor de redação, Ben Bradlee (Tom Hanks) – o mesmo que dois anos depois comandaria o jornal ao longo do caso Watergate. Ao representar o dilema de Kay sobre a publicação, Streep a transforma numa heroína da liberdade de expressão e da ascensão feminina.

Kay sofre pressão externa e interna para não publicar. Um dos principais atingidos pela publicação é seu amigo Bob McNamara (Bruce Greenwood), ex-secretário de Defesa nos governos John Kennedy e Lyndon Johnson. Os advogados e executivos engravatados que comandavam a abertura de capital da empresa bem na semana da publicação temiam um recuo dos investidores e até mesmo a prisão dela e de Bradlee. No final, Kay fica com Bradlee e apoia a publicação, que precisará ser defendida diante da Suprema Corte.

O maior problema do filme está na leitura dos fatos: não foi o Post que correu o maior risco ao publicar os documentos. Foram o Times, seu publisher Arthur “Punch” Sulzberger e seu diretor de redação Abe Rosenthal, personagens secundários na narrativa levada às telas por Spielberg. O caso decidido pela Suprema Corte é registrado nos anais do tribunal como The New York Times Co. vs. United States.

O Post só entrou na história depois que um juiz atendeu ao pedido do governo e suspendeu as reportagens que o Times vinha publicando havia três dias, com base nos 7.000 documentos vazados pelo informante Daniel Ellsberg – um ex-analista da Rand Corporation que participara da elaboração do estudo encomendado por McNamara em 1965 e o xerocara pacientemente.

Um repórter do Post procurou Ellsberg e obteve o mesmo material, levando Bradlee e Kay a reviver o dilema do jornal rival. “O Post teve tanto a ver com os Documentos do Pentágono quanto o Times com Watergate”, escreveu sobre o filme James Goodale, então diretor jurídico do Times. A própria Kay, diz ele, minimiza seu papel no caso em sua autobiografia. Tanto ela como Bradlee tiveram papel decisivo no caso Watergate, que levou o presidente Richard Nixon à renúncia e originou o livro e o filme Todos os homens do presidente.

O valor do filme de Spielberg está em reproduzir, apesar da liberdades com os fatos, o funcionamento das engrenagens da imprensa. A proximidade com os centros de poder, tanto de jornalistas quanto dos donos, cria dilemas éticos cotidianos. As tensões vividas por Kay, políticas e comerciais, estão no dia a dia de toda grande publicação. Uma empresa de comunicação só obtém prestígio e sucesso se souber lidar com os dilemas e enfrentar as pressões.

Como o roteiro deixa claro, duas condições são necessárias para isso. A primeira é a alma jornalística no controle. Executivos de mercado, em seus ternos bem cortados e gravatas brilhantes, estão sempre dispostos a ceder aos interesses do negócios, também legítimos. Mas o jornalismo não é um negócio como qualquer outro. Seu dever não é apenas publicar aquilo que o público quer, mas sobretudo aquilo que o governo não quer. Apenas donos, como cidadãos e seres humanos, podem tomar ou bancar as decisões mais difíceis.

A segunda condição deriva imediatamente da primeira. Só o comando centralizado, quase sempre familiar, e a solidez financeira são capazes de enfrentar tais pressões em nome do interesse jornalístico. A noção de que um “start-up inovador” do Vale do Silício ou uma empresa regida pelos ditames trimestrais do mercado acionário teriam a capacidade de reinventar o jornalismo não passa de quimera. Não resiste ao primeiro telefonema de um assessor de quinta categoria da Casa Branca ou do Planalto.

Se há saída para o jornalismo (e para a democracia), as empresas de comunicação devem manter vivo o legado de Kay e impedir que pressões financeiras sufoquem a alma jornalística. Para os donos das maiores do planeta – Mark Zuckerberg, Sergey Brin e Larry Page –, as lições de Kay são ainda mais importantes. Precisam deixar de lado a ideologia redentora do Vale do Silício e perceber que seu dever essencial não é atender à demanda do público ou aos interesses comerciais de suas empresas – mas, em nome da liberdade, enfrentar o poder.

Fonte: G1

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