'Metade de mim sempre vai permanecer na ilha', diz brasileira que sobreviveu à fúria do Irma no Caribe

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Lorrayne e o marido Davi na primeira foto tirada em São Martinho, em agosto de 2016 (Foto: Arquivo pessoal)Lorrayne e o marido Davi na primeira foto tirada em São Martinho, em agosto de 2016 (Foto: Arquivo pessoal)

Lorrayne e o marido Davi na primeira foto tirada em São Martinho, em agosto de 2016 (Foto: Arquivo pessoal)

Alívio e angústia são sentimentos vividos com intensidade nas últimas semanas pela fotógrafa brasileira Lorrayne Mavromatis. Ela e o marido, Davi Mavromatis, sobreviveram à fúria do Furacão Irma, que devastou a ilha São Martinho, no Caribe, onde o casal morava há um ano. Em solo brasileiro após ser evacuada pela Força Aérea Americana, Lorrayne descreve a dor de ter deixado para trás o local pelo qual se apaixonou, mas também a alegria de estar a salvo ao lado da família.

“Metade de mim sempre vai permanecer na ilha. Não tem uma noite que não vá dormir e não sonhe com tudo aquilo. Não tem um momento que estou sozinha e não escute os barulhos do furacão, que eu não reveja as cenas. Nunca vou esquecer”, diz emocionada.

Lorrayne e Davi se mudaram para São Martinho depois que ele conquistou uma vaga no curso de medicina da American University of the Carebbean School of Medicine, em agosto de 2016. Formada em fotografia, de lá para cá, ela passou a se dedicar à produção de vídeos com o intuito de descomplicar a prática. Não demorou, no entanto, para que começasse a mostrar a rotina do casal na ilha. As dificuldades do dia a dia, como a falta de alguns produtos com os quais estava acostumada, a fizeram descobrir alternativas e foram essas alternativas contadas em imagens que a tornaram popular no Youtube.

A internet, que virou um instrumento de trabalho, foi fundamental para que Lorrayne conseguisse deixar São Martinho em um dos momentos mais desesperadores da vida do casal.

No início de setembro, os dois voltavam das férias em Miami quando receberam o alerta de que um furacão de intensidade 5 poderia atingir a ilha. A passagem de furacões por São Martinho é comum de abril a dezembro, mas um fenômeno de tamanho potencial de destruição deixou a população apreensiva.

Diante da possibilidade, o casal reservou passagens rumo aos EUA, mas precisava da garantia da rematrícula da universidade de Davi para poder viajar. No domingo (3), eles receberam o aviso de que poderiam evacuar, mas se depararam com o fechamento do aeroporto local. Os voos voltaram a ser autorizados um dia depois, mas os custos com as passagens ficaram inviáveis, chegando a US$ 4 mil só a ida.

“Nós e mais mil alunos ficamos nessa situação. Nos abrigamos no campus porque garantiram que a construção havia sido feita pra suportar um categoria 5. Dois dias antes, nós levamos uma mala grande só com água e outra só comida enlatada. Na terça-feira de manhã a gente foi pra escola, porque teria um toque de recolher. Na quarta-feira, às 6h, ele começou forte”, diz.

De dentro do prédio, Lorrayne diz ter vivido momentos de grande tensão, uma vez que presenciou a força da natureza de uma forma como nunca antes na vida. Parte de um alojamento da faculdade chegou a ser inundado e os estudantes foram realocados.

“Dava pra ver tudo, eram muitas janelas de vidro e estavam na nossa frente. Foi desesperador porque a gente via coqueiro, carro voando. A gente não só via a intensidade do vento, como as paredes mexiam. As paredes internas tremiam, a água do vaso sanitário tremia. Todo mundo lá dentro ficou enjoado, porque dava pra sentir a movimentação do prédio. Ele era muito bem construído, mas você sentia isso.”

Na tarde de quarta-feira (6), os abrigados puderam sair do prédio e constataram a destruição. Lorrayne, que morava há poucas quadras da faculdade, diz que das janelas conseguia ver seu apartamento, mas não era possível mensurar os estragos. Só dois dias depois ela diz ter se dado conta do impacto do Irma na sua vida.

“Eu olhava e pensava: será que estragou? Eu não tinha ideia. Quando o Exército liberou o acesso e pudemos ver o que aconteceu, parecia que estávamos em um estúdio de filmagem de um filme de terror. Não parecia real, eram prédios caídos. Eu cheguei na frente do nosso prédio, olhei pra cima e vi que não tinha parede. Entrei em desespero e entendi que tinha perdido tudo. Aí a ficha caiu de que tinha sido devastador.”

Segundo Lorrayne, a passagem do Furacão causou medo, mas o cenário deixado por ele foi ainda mais aterrorizante. A condição das pessoas na ilha começou a se agravar, porque não havia mais comida, água ou proteção.

“As pessoas estavam começando a roubar e a matar. No desespero, as pessoas querem comida, querem água. Dois dias após o Irma, recebemos o alerta de que o Jose também atingira a ilha. Nosso medo aumentou ainda mais. As pessoas já estavam sem casa e nós tínhamos medo de invasões”, lembra.

Davi e Lorrayne durante a permanência na faculdade de Medicina na ilha caribenha (Foto: Arquivo pessoal)Davi e Lorrayne durante a permanência na faculdade de Medicina na ilha caribenha (Foto: Arquivo pessoal)

Davi e Lorrayne durante a permanência na faculdade de Medicina na ilha caribenha (Foto: Arquivo pessoal)

Fotógrafa registra destruição no bairro onde morava um amigo na ilha caribenha (Foto: Arquivo pessoal)Fotógrafa registra destruição no bairro onde morava um amigo na ilha caribenha (Foto: Arquivo pessoal)

Fotógrafa registra destruição no bairro onde morava um amigo na ilha caribenha (Foto: Arquivo pessoal)

Foi então que Lorrayne se apegou às redes sociais em uma tentativa desesperada de contatar o governo brasileiro para deixar a ilha. Mesmo com poucos recursos, já que o sinal no celular mais oscilava que funcionava, ela deu início a uma campanha para mobilizar as autoridades. Os milhares de seguidores formaram uma corrente para ajudá-la.

A tentativa de contatar o governo deu certo, mas ela se deparou com um sentimento de decepção ao ser informada de que não havia um plano de evacuação para brasileiros.

“A gente se sentiu abandonado, porque os EUA estava evacuando há três dias, a Venezuela também, e o Brasil nada. Os estudantes americanos já estavam sendo evacuados, e a escola estava ficando vazia. Estávamos desesperados porque estávamos sendo deixados pra trás. Foi aí que o consulado disse que não tinha plano de evacuação, mas que mandaria mantimentos. Eu fiquei em desespero porque a gente não precisava de mantimentos, mas sim de sair dali agora.”

Lorrayne e o marido aguardam o voo da Força Aérea Americana para deixar São Martinho (Foto: Arquivo pessoal)Lorrayne e o marido aguardam o voo da Força Aérea Americana para deixar São Martinho (Foto: Arquivo pessoal)

Lorrayne e o marido aguardam o voo da Força Aérea Americana para deixar São Martinho (Foto: Arquivo pessoal)

No mesmo dia, Lorrayne foi avisada pela escola de que poderia tentar a evacuação com a ajuda dos EUA, porque o marido tem cidadania americana.

“Eu não tinha mais esperança ou era isso ou seríamos deixados pra trás e íamos acabar morrendo na ilha. Ficamos 6 horas na fila e pudemos ser evacuados. Enquanto estávamos na fila fiz meu último apelo, porque meus amigos não seriam evacuados.”

A fotógrafa não consegue segurar a emoção e chora ao se lembrar do momento em que entrou no avião americano. Os dois foram levados a Porto Rico, e depois seguiram para São Paulo (SP). Ao pousarem, ela tomou conhecimento do envio de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para resgate de desabrigados.

“Eu pensei: Estou salva. Jamais vou conseguir colocar em palavras o alívio de voltar ao Brasil, a gratidão e a sensação de que estou segura, eu estou salva e com a minha família. Isso não tem preço.”

Só quando chegou ao Brasil, Lorrayne diz ter se dado conta do alcance da corrente do bem formada pelos seguidores brasileiros que acompanharam sua batalha.

“Minha mãe falava que o Brasil estava se movimentando, que as pessoas estavam mandando mensagens para o governo e isso nos dava esperança. E foi fundamental, fez toda a diferença. A minha gratidão é tão grande que não cabe em um só post do Instagram. Eu quero ver e abraçar essas pessoas, falar obrigada.”

Cercada de familiares em Vinhedo e em Ribeirão Preto, ela faz planos de tentar ajudar a reconstrução de São Martinho. Como a previsão é de que a ilha só volte a ter estabilidade em um ano, o marido deve concluir o curso de medicina em outra localidade, o que reforça o gesto de solidariedade, já que eles não devem voltar a morar em São Martinho. Nesta semana, a região se prepara para chegada do furacão Maria, de categoria 2.

“Por enquanto, vamos ficar no Brasil aproveitando a família ao máximo. Não sei se voltaria a morar na ilha, mas quero muito voltar para ajudar. Quero muito fazer algo pra ajudar as pessoas que estão lá. Estou falando com organizações no Brasil e quero muito ajudar. Eu quero muito fazer isso.”

Já no Brasil, Lorrayne recebe o carinho do avô, José Frangiosi, em Ribeirão Preto (Foto: Arquivo pessoal)Já no Brasil, Lorrayne recebe o carinho do avô, José Frangiosi, em Ribeirão Preto (Foto: Arquivo pessoal)

Já no Brasil, Lorrayne recebe o carinho do avô, José Frangiosi, em Ribeirão Preto (Foto: Arquivo pessoal)

Fonte: G1

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