Moradores de rua ou personagens de Charles Dickens | G1 – Pop & Arte

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Em meio a tantas e tantas notícias veiculadas pela imprensa, uma produziu um efeito devastador na minha alma. O jornal, de segunda-feira 7 de agosto último, publicou uma longa matéria sobre a reação dos habitantes de Copacabana e outros bairros em relação aos moradores de rua. O síndico de um grande edifício no coração de Copacabana mandou instalar chuveiros nas marquises impedindo assim a permanência de moradores de rua indesejáveis. Uma página terrível de nossa história que revela o lado dantesco de pessoas comuns em grandes cidades do Brasil.

Lembro-me, como se fosse hoje, de uma manhã, ao chegar no prédio do IFCS, no Largo de São Francisco, encontrar no último degrau da escada que dá acesso ao saguão, uma cena escabrosa. Um jovem caído no chão, com a cabeça numa poça de sangue. Os estudantes que chegavam pulavam por cima do “mendigo” desmaiado e no máximo faziam uma expressão de nojo.

Fiquei estarrecida. Não havia celular naquele tempo, mas na portaria tínhamos um telefone. Tentei ligar para vários hospitais, para a polícia e os bombeiros, sem sucesso. Até que aflita, chamei um táxi, expliquei a situação e junto com o motorista e o porteiro colocamos o “mendigo” no banco traseiro do automóvel. Dei o dinheiro da corrida e pedi para levá-lo ao Souza Aguiar, o hospital mais perto.

Voltei e fui dar aula. Passei dias de angústia. Será que o motorista do táxi realmente havia levado o rapaz ao hospital? Será que embolsara a grana? Eu deveria ter acompanhado. Os dias se passaram e uma manhã, cerca de dez dias depois do ocorrido, quando estava em uma reunião, o porteiro me chamou pois havia um rapaz na portaria e queria falar comigo. Desci imediatamente e lá estava o tal “mendigo” com um curativo enorme na cabeça. Era muito jovem, moreno claro e sorriso largo. Agradeceu-me pela ajuda e disse que era epilético, não podia beber, mas tinha o vício e por isso as crises eram frequentes. Era de Minas, o que pude perceber de imediato pelo sotaque, e morava na rua porque havia se desentendido com sua família.  Dei conselhos inúteis, mas nunca mais o vi pelas redondezas.

Trabalhei no IFCS ao longo de quarenta e três anos e sempre convivi de longe com os moradores de rua. Conhecia alguns pelo nome e outros reconhecia de tanto vê-los zanzando de lá pra cá na praça, nas calçadas e mudando de lugar dependendo da hora do dia. Se fosse pela manhã, ficavam nas escadarias da Igreja de São Francisco de Paula, à tarde vinham para a sombra debaixo de duas amendoeiras na calçada do prédio centenário da faculdade. Alguns eram moradores assíduos, outros eventuais. De tempos em tempos uma das figuras desaparecia.

As escadarias do IFCS e as pequenas sacadas serviam de casa, de abrigo para relações amorosas e também criavam uma certa privacidade para que pudessem fazer suas necessidades. De manhã cedo, quando a aula começava às sete da manhã, o cheiro de urina e das fezes era insuportável. Mas ao longo das primeiras horas do dia um funcionário de, uma empresa terceirizada de limpeza, com um balde e uma pá, recolhia a sujeira e depois jogava água com algum detergente. Às vezes usava creolina cujo cheiro, misturado ao da urina e das fezes, era de arrepiar.

Um dia, cansada de ver aquele jovem magro, alto e que era deficiente auditivo com sua sandália de dedo limpando a sujeira sem que ninguém se apiedasse, como um pária de casta indiana, perguntei porque não se usava a mangueira que volta e meia eu via no pátio. O rapaz com voz muito baixa me disse: “Professora, a mangueira não é suficientemente longa para atingir a escada”. Fiquei pasma. Atravessei a rua e fui até a casa da borracha encomendar uma mangueira que alcançasse o objetivo de limpar as escadarias e as sacadas. O funcionário ficou meu amigo e fomos conversando ao longo dos anos. Ele sempre doce e ouvindo pouco, nunca reclamou do seu serviço.

Os tempos passaram, fui até diretora do IFCS, mas os moradores de rua continuavam lá e cada vez em maior número. Imaginamos colocar grades, mas sempre desistíamos face aos reclamos dos estudantes que logo nos chamavam de burgueses, capitalistas etc. O funcionário da limpeza continuou por anos a fazer o serviço mais difícil e impuro sem nada reclamar. Lá pelas dez horas da manhã o acesso ao prédio estava limpo. Um trabalho invisível.

Um dia, não sei como, muito tempo depois de eu ter deixado a direção,  conseguiu-se colocar grades com a justificativa de proteger o frontispício tombado pelo IPHAN. O protesto estudantil e de muitos colegas foi grande, mas o cheiro realmente diminuiu e os moradores agora ficavam encostados entre o meio-fio e as grades de ferro.

Quando eu estava quase me aposentando dei um curso de introdução à antropologia e o trabalho final proposto foi o de uma etnografia do Largo de São Francisco e do próprio IFCS. Cada grupo escolheu um aspecto – a prostituição, o comércio ambulante, os donos de loja do entorno, a polícia, os movimentos estudantis, os professores e, finalmente, os moradores de rua. Foi certamente um dos melhores cursos que dei na vida. Gostaria de ter publicado o livro com os trabalhos finais. Eles estão lá guardados, mas não tive forças.

Um dos grupos fez uma belíssima etnografia dos moradores de rua. Entrevistaram muitos moradores, mas também outras pessoas que conviviam no Largo, estudantes de ciências sociais que diariamente enfrentavam a difícil situação de ter de conviver e ao mesmo tempo relativizar a vida dessas pessoas. Acabaram entrevistando muitos moradores. Todos se dispuseram a participar do projeto.

Fizeram um pequeno documentário que revela os muitos lados do morar na rua, inclusive entrevistando os garis que têm como tarefa matutina limpar a sujeira que as pessoas deixam na rua. Um documentário tocante cujo título é Moradores de rua – realidades e mito ( uma perspectiva) pode ser encontrado aqui 

https://www.youtube.com/watch?v=BGMnjJje9N8)

Moradores de Rua - realidades e mito (uma perspectiva)

Conto essas lembranças de um passado recente da minha vida para mostrar o lado difícil e até trágico de viver numa cidade grande nos trópicos. É difícil não se emocionar com a vida e a relação entre os miseráveis e os mais bem aquinhoados pela fortuna. Não há solução fácil, mas espantar essas pessoas com água fria pela manhã, como fizeram e fazem em muitos bairros da cidade agora repletos de gente vivendo ao relento e muitos drogados, certamente não é a forma mais humanitária. Se não fosse por estarmos nos trópicos e no século XXI os moradores de rua poderiam ser personagens de Charles Dickens e certamente lembram a Inglaterra do século XIX na famosa descrição de Friedrich Engels no clássico A situação da classe trabalhadora na Inglaterra publicado pela primeira vez em 1945.

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Fonte: G1

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