Temer não sairá fortalecido

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A provável permanência no cargo do presidente Michel Temer lhe custará caro. Se houver votação (e tudo leva a crer que haverá), Temer vencerá no plenário. Mas seu capital político – e, com ele, sua capacidade de levar adiante o programa de reformas – terá sido gasto em nome da própria sobrevivência.

Os R$ 4,1 bilhões liberados em emendas parlamentares, os agrados à bancada ruralista, as trocas de deputados na Comissão de Constituição e Justiça e a volta à Câmara de ministros e secretários estaduais deverão lhe garantir os poucos votos necessários para barrar a denúncia. Mas não lhe darão segurança de um governo doravante tranquilo.

De acordo com o placar do jornal O Globo, o mais negativo para Temer, apenas 200 deputados declaram que votarão contra ele – para a denúncia ser aprovada, seriam necessários 342. Em contrapartida, 115 dizem que votarão a seu favor. Quase 200 estão indecisos ou não declaram voto – sinal de que o valorizam no balcão de negócios.

O governo almeja somar até 280 votos. Mas as contas mais realistas dos aliados de Temer falam em apenas 220 firmes. Na impossibilidade de vencer, a oposição se resignou em tentar reduzir a bancada pró-Temer ao patamar de 200 votos. A verdade é que ele tem mais poder de convencer os indecisos.

Uma avaliação simples de estratégia o favorece. O interesse de quem quer tirá-lo do cargo é inflar ao máximo a força da oposição. É razoável, portanto, supor que todo oposicionista convicto já tenha declarado voto contra. Para os demais deputados, aqueles sem convicção alguma, o dilema que se apresenta não é tão complexo.

Votar a favor de Temer rende benesses e cargos do governo e pode custar, nas urnas, o preço de associar-se ao presidente mais impopular na história do Brasil. Mas não é absurdo apostar que, até 2018, o eleitor terá esquecido o resultado de hoje (ou alguém ainda lembra os votos do impeachment?). Votar contra Temer implica romper com um governo que sairá vitorioso e pagar, hoje, o preço em perda de cargos, emendas e benesses.

Se você é um deputado sem espinha vertebral ideológica, cujo eleitorado está mais preocupado com interesses paroquiais, qual a opção mais sensata? Obviamente, a que traz ganhos certos no presente para custos duvidosos no futuro: abstenção ou voto favorável.

A esta altura, portanto, seria de esperar que Temer manifestasse uma força bem maior que os 115 que se declaram a seu favor. O fato de que não consiga é um sinal evidente de enfraquecimento político. Se houver votação hoje e ele não ultrapassar os 220 votos, terá sido um sinal de fraqueza ainda maior.

Qualquer vitória em que o governo obtenha menos de metade do plenário, ou 257 parlamentares, será pírrica. Se ficar perto de 300 votos, Temer terá dado uma prova de que ainda dispõe de capital político para tocar seu programa de governo. Mas o ideal, hoje inviável, seriam os 308 necessários à aprovação de emendas constitucionais.

A realidade impõe à oposição um dilema mais complexo. Se não consegue vencer, o que é melhor: esvaziar o plenário para adiar a votação – ou forçá-la, para tornar evidente a fraqueza do governo? Não é à toa que, reunidos ontem para definir sua estratégia, os partidos oposicionistas não tenham chegado a um acordo.

Na esperança de que o procurador-geral Rodrigo Janot apresente nova denúncia contra Temer, alguns preferem perder hoje e concentrar as baterias noutra votação eventual. Outros acreditam – com razão – que essa esperança pode se revelar ilusória. Julgam melhor forçar o adiamento da decisão de hoje, para enfraquecer Temer ainda mais no futuro próximo. Mas não apresentam estratégia convincente.

Em tese, os mais de 190 votos oposicionistas seriam suficientes para obstruir a sessão – bastariam 172 para evitar o quorum exigido. Mas há deputados que, mesmo contrários a Temer, acreditam ser melhor votar hoje – muitos deles no PT, com 58 votos. O único consenso na oposição é tentar deixar o voto para tarde da noite, de modo a reduzir o impacto do noticiário. Se Temer sai fraco, a oposição sai derrotada.

Independentemente do placar, Temer não terá se livrado das acusações. Persiste a ameaça de uma nova denúncia, e a Operação Lava Jato não desaparecerá. Novas delações ainda podem atingi-lo. Pelo resto do governo, Temer estará marcado não apenas pela conversa abjeta com o empresário Joesley Batista, mas também por ter usado poder e recursos públicos para salvar a própria pele.

Fonte: G1

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