domingo, maio 31, 2020
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Coronavírus na China: a escritora que relatou a vida em Wuhan e despertou a ira dos nacionalistas

Foi o ponto de partida da crise que abalou o mundo e Fang Fang forneceu uma visão única do que aconteceu por lá.

A aclamada escritora de 64 anos, cujo nome verdadeiro é Wang Fang, escreveu um diário digital de Wuhan, a cidade chinesa onde a covid-19 foi detectada pela primeira vez, em dezembro do ano passado.

Seus textos relatando os primeiros dias de confinamento rígido ganharam rapidamente a atenção local e seu diário acabou traduzido para o inglês, o que provocou uma onda de críticas na internet, e também a fúria da imprensa estatal chinesa.

Alguns até a chamaram de “traidora”, pois acreditam que sua história servirá como argumento para os críticos do país em meio à crescente guerra retórica entre os Estados Unidos e a China sobre o coronavírus.

A autora, que recebeu o prêmio literário de maior prestígio na China em 2010, considerou essas acusações “infantis”.

“Não há tensão entre o país e eu”, disse Wang em entrevista publicada pela prestigiada revista chinesa Caixin, na qual critica o contínuo cyberbullying que sofreu nos últimos meses.

Quando o governo chinês impôs o confinamento em Wuhan no fim de janeiro, Fang Fang começou a documentar o que era visto como uma crise local, até então.

No início deste ano, Wuhan se tornou o primeiro lugar no mundo a confinar sua população, algo que depois se tornou realidade em diversas outras cidades ou até países inteiros no mundo.

Em seu diário, a autora relatou os desafios da vida cotidiana e o impacto psicológico do isolamento forçado.

Mas ela também abordou aspectos mais delicados no país, onde a censura prevalece nas publicações na Internet e na mídia: Fang Fang falou do caso do médico Li Wenliang, repreendido pela polícia por alertar seus colegas sobre uma “doença desconhecida”. “Ele morreu devido à covid-19, buscando apontar responsabilidades pelo que aconteceu.”

Os textos de Fang Fang foram amplamente lidos na China, oferecendo a milhões de cidadãos sua perspectiva sobre o que estava acontecendo no epicentro da doença.

À medida que o confinamento aumentava, a popularidade de Fang Fang cresceu e seu tradutor, Michael Berry, sugeriu que ela trabalhasse em uma versão em inglês do diário, como ela própria explicou na entrevista publicada pela revista.

Apesar de sua relutância em fazê-lo inicialmente devido à delicada situação em Wuhan, Fang concordou quando a cidade superou o pior da crise e começou a entrar na “nova normalidade”.

A editora HarperCollins, que encomendou a edição no exterior, diz que “deu voz aos medos, frustrações, raiva e esperanças de milhões dos compatriotas (de Fang Fang)”.

“Ela também se manifesta contra a injustiça social, abuso de poder e outros problemas que dificultam a resposta à epidemia e acabam envolvidos em polêmicas online sobre o assunto.”

Wuhan começou a voltar ao normal após dias de quarentena rigorosa — Foto: AFP

O “cibernacionalismo” é um fenômeno comum nas redes sociais na China.

Milhares de usuários estão prontos para atacar toda vez que a China é criticada, humilhada ou submetida a qualquer forma de insulto. E Fang Fang não é a primeira a sofrer com isso.

Nesse caso, como o vírus continuou a se espalhar pelo mundo, também aumentou a cobrança de uma resposta da China à epidemia, principalmente dos Estados Unidos.

Isso fez com que muitos usuários ficassem na defensiva, em linha com a imprensa estatal.

De acordo com o site de notícias especializadas What’s on Weibo, “foi então que a opinião pública deu as costas a ela, ao saber que uma edição internacional de seu diário estava sendo oferecida na pré-venda pela Amazon “.

“Aos olhos de muitos usuários chineses, uma tradução do testemunho crítico de Fang Fang sobre o que aconteceu em Wuhan durante a epidemia servirá apenas para dar mais munição aos oponentes da China”, afirmou o portal.

A autora sofreu fortes críticas, com algumas até considerando que “ela estava usando sua fama para capitalizar uma tragédia “.

“Ela está aproveitando esse momento de crise nacional e está lucrando. Isso é desprezível”, disse um usuário da rede social Weibo.

A raiva contra a escritora é alimentada pelo fato de o livro ter sido publicado pela editora americana HarperCollins, em um momento de crescente tensão entre Washington e Pequim.

Autoridades chinesas implementaram medidas muito rígidas e usaram ferramentas tecnológicas controversas para controlar infecções. — Foto: AFP

A imprensa estatal chinesa também deixou bem clara sua posição sobre Fang Fang.

“Sua ascensão global alimentada pela mídia estrangeira levantou temores na China de que a escritora poderia simplesmente se tornar outra ferramenta útil para o Ocidente sabotar os esforços do povo chinês”, disse uma nota no jornal oficial Global Times.

“O diário dela mostra apenas o lado sombrio de Wuhan, ignorando os esforços dos cidadãos locais e o amplo apoio em todo o país”, acrescenta.

‘Nem tudo é conspiração’

Fang Fang não se deixou abalar pelas críticas.

“Se as pessoas com segundas intenções no exterior quiserem usar o livro dessa maneira deliberadamente, o farão de qualquer maneira. Devemos deixar de publicá-lo simplesmente porque alguém quer usá-lo de maneira inadequada?”, questionou ela.

“Nem tudo é uma conspiração. Sou idosa e não consigo nem ler em outros idiomas. Se as pessoas no exterior quiserem criar uma trama, seria melhor se elas conspirassem com outra pessoa mais forte, certo?”

A autora lamentou a atitude que encontrou no meio da crise que afetou Wuhan e o mundo inteiro. “Quando um registro tão moderado não pode ser tolerado e desperta o ódio de tanta gente, isso faz com que inúmeras pessoas fiquem em um estado de medo.”

Wuhan foi onde tudo começou — Foto: Noel Celis/AFP

Como o livro foi avaliado?

Ainda é difícil saber o que críticos e especialistas pensam, uma vez que o livro foi publicado na sexta-feira passada.

O jornal americano The New York Times destacou sua “honestidade crua”, dizendo que “ela pôde ter vivido com resignação durante a quarentena, mas escreve frases corajosas”.

A emissora de rádio americana NPR ressalta que o diário é “um documento sobre o trivial, trágico e absurdo em Wuhan durante os 76 dias de confinamento”, mas lamenta que a tradução em inglês seja incapaz de “capturar a multidimensionalidade” presente na publicação original em chinês.

Na Amazon, no entanto, o livro recebeu várias críticas negativas, uma das quais diz que o texto oferece “informações totalmente falsas”.

Por outro lado, um usuário elogiou a obra, dizendo que “ela fornece uma janela para ver como era viver em uma cidade que estava sendo observada em todo o planeta”.

Fonte: G1

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