O governo federal rachou nas discussões sobre a autorização para que empresas pudessem comprar 33 milhões de doses da AstraZeneca. A equipe econômica defendia a autorização, desde que metade das doses fossem doadas para o Programa Nacional de Imunização. A ala política se contrapôs à ideia, alegando que a autorização seria uma confissão por parte do governo da incapacidade de adquirir todas as doses necessárias pra imunizar a população.

O presidente Jair Bolsonaro acabou optando pela visão da equipe econômica, que dizia não haver motivos para não autorizar, já que as doses seriam “sem custo” para o país e não concorreriam com os 200 milhões previstos para entrega e produção por meio da Fiocruz. Já os ministros da área política chamavam a atenção para a possibilidade de desgaste com discussões sobre empresas furando a fila, além de dizerem que o governo, com a edição de uma MP em 2020, dispunha de 20 bilhões de reais para suprir suas necessidades de compra de vacinas.

A autorização do governo era necessária para que a negociação já que os laboratórios firmaram compromissos com os governos de que estes têm prioridade na aquisição das doses. Esgotada a demanda governamental, as doses podem ser vendidas ao mercado privado. Empresários relataram que teriam acesso aos milhões de doses por meio de um investidor que aplicou recursos no desenvolvimento da vacina e que portanto teria a opção de adquirir as doses por um preço acima do que é vendido aos governos. Doariam metade das doses para o SUS e usariam o resto para imunizar trabalhadores e eventualmente acionistas e familiares das empresas.

Bolsonaro, então, determinou que o Ministério da Saúde autorizasse a compra por parte das empresas e anunciou a sua decisão na manhã de hoje. Ocorre que a AstraZeneca acabou divulgando nota dizendo que não pretende vender as doses para o mercado privado, na contramão dos planos de Bolsonaro.

VÍDEO: Bolsonaro defende que empresas privadas comprem vacinas

VÍDEO: Bolsonaro defende que empresas privadas comprem vacinas

Em nota hoje, a farmacêutica disse: “No momento, todas as doses da vacina estão disponíveis por meio de acordos firmados com governos e organizações multilaterais ao redor do mundo, incluindo da Covax Facility, não sendo possível disponibilizar vacinas para o mercado privado.”

A decisão do laboratório de negar a autorização deflagrou novo embate interno, com a conta sobre a exposição de Bolsonaro no caso debitada do ministro Paulo Guedes. Integrantes do governo questionavam o fato de Bolsonaro ter se exposto em defesa de uma medida, negada pela farmacêutica.

Um cenário provável é que o governo não tenha consultado a farmacêutica antes da decisão de autorizar a compra por parte das empresas, algo que seria o básico, inclusive na visão de ministros. O governo não se manifestou sobre o caso.

Conteúdo retirado do site: G1 da Globo